Margem
Eny e seu buquê de mulheres
Por: Lara Fagundes
Eny Cezarino morreu em 24 de agosto de 1987, aos 69 anos, por complicações de saúde e sem dinheiro para pagar um bom tratamento. Eny caiu junto ao seu império, ambos como vítimas do tempo, mas seu nome ainda continuou na boca do povo bauruense que, apesar de todos os preconceitos em relação à sua profissão, ficou em luto por admiração e respeito à mulher que fez parte da história do lugar.
Nos anos 1960, o Eny's Bar era um dos locais mais comentados na cidade, conhecido como o maior bordel do país. Hoje, o nome da cafetina permanece como um churros sabor café em um Food Truck na famosa Praça da Paz, um dos pontos mais conhecidos de Bauru. A madame pode não ser tão falada quanto antes, mas sua imagem ainda resiste em Bauru, não só como a maior cafetina de sua época, mas como uma empresária e uma mulher caridosa. Ela faz parte do imaginário da população e da história contemporânea.
Nascida em 1916, no bairro da Aclimação, em São Paulo, Eny Cezarino era metade italiana, filha de José Cezarino, e metade francesa, filha de Angelina Bassotti, dois imigrantes europeus. Durante toda a sua vida, teve uma família tradicional, que valorizava os bons costumes e a preparava desde pequena para se casar. Eny estudou em um colégio de freiras e cresceu cercada por uma educação rígida e religiosa, porém, queria ir além do que sua família esperava e, alterando todo seu destino, demonstrou seu desejo por mudança ao fugir de casa assim que completou a maioridade.
A jovem fugiu para não se casar com um militar escolhido por seus pais e, com isso, iniciou sua vida independente trabalhando como prostituta na Zona Sul do Rio de Janeiro. Sendo guiada pelas mulheres que conheceu nesse período, a maioria delas eram imigrantes italianas que viviam desse meio, Eny cresceu no ramo e esteve em vários lugares, como Porto Alegre (RS) e Paranaguá (PR) até se instalar em Bauru, no interior de São Paulo.
Sua vida como prostituta se estendeu e ela costumava dizer que, mesmo com todo o preconceito, a prostituição a levou para um lugar melhor que o trabalho de suas amigas, que eram operárias de fábicas, e de sua irmã, que era entregadora de marmitas em restaurantes. Essa escolha foi algo que a afastou de sua família conservadora e tradicional por um tempo.
Eny chegou a Bauru na década de 1940 como uma das moças da Pensão Imperial. Após alguns anos de trabalho, ela conseguiu juntar dinheiro suficiente para comprar o estabelecimento e se tornar gerente em 1947. Foi então que sua história começou.
Investindo em sua casa de prazeres, Eny trouze para a cidade do interior paulista um padrão de qualidade insuperável dentro da prostituição. Em uma casa com mais de 40 quartos, saunas, restaurantes, bares, salões de festas e um grande jardim repleto de flores vermelhas – as favoritas da cafetina –, o Eny's Bar ergueu-se com meninas escolhidas a dedo por Madame Eny, como ficou conhecida conforme sua fama crescia. E a fama cresceu bastante.
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Imagem: autor desconhecido/ Folha de S.Paulo
Madame Cezarino e seu bordel, em poucos anos, tornaram-se cada vez mais conhecidos; o local era uma espécie de ponto turístico de Bauru, e Eny, uma das pessoas mais poderosas da época. Dizem que ela, durante os anos de ouro, obteve a maior fortuna de Bauru e nada mais justo do que a mulher mais rica do lugar exercesse o mesmo tamanho de influência. Estava ali um grande império do sexo pago.
A expansão de seu negócio foi notável, gerando grande interesse que ia além das fronteiras habituais do ramo. Sua tamanha glória chamou a atenção até mesmo de personalidades de destaque, desde músicos e artistas até políticos, que estiveram na Casa reconhecendo-a como um ponto essencial da cidade.
Uma vez, sua casa foi fechada por desrespeitar uma lei municipal, mas foi reaberto três horas depois. Esse fechamento ocorreu porque, de acordo com as regras do período, era proibido que zonas de meretrício ficassem na área central; existia um local especificado onde casas como a de Eny eram permitidas, conhecido popularmente como “formigueiro”, no extremo leste da cidade.
O Eny's Bar desrespeitou essa lei por estar na região da Rio Branco, uma das ruas centrais de Bauru, e recebeu reclamações por estar a 50 metros de um cinema que existia por lá, o que levou ao fechamento do bordel. Porém, com seu poder, Eny conseguiu contornar a lei com o auxílio de Nicola Avallone Jr, ex-prefeito, que foi conhecido por sua proximidade com a cafetina. Além de convencer o juiz Octávio Stucchi a liberar a casa, também ajudou na mudança de local.
Saindo do centro, mas ainda mantendo seu diferencial de não fazer parte das demais zonas, a Casa de Eny foi transferida para próximo da rodovia Bauru-Ipaussu, local decidido pelo próprio Nicola. O Eny's Bar era considerado puro luxo, muito maior e mais reconhecido do que qualquer outro bordel que pudesse se encontrar na cidade, o ponto foi nomeado posteriormente como o Trevo da Eny.
Em entrevista para a Revista Bauru, em 1983, Nicola relatou toda essa história e ainda contou sobre como ele mesmo recrutou companheiros para ajudá-la a se mudar. “Provamos ao Juiz que a Eny era um elemento agregador e não desagregador”, disse Avallone.
O ex-prefeito falava bastante sobre Eny em entrevistas e pela cidade durante seu mandato; a elogiava sempre que podia. Segundo ele, Cezarino foi conhecida como uma Dama da Caridade. “Ela financiava escolas, creches, entidades de freiras. Mulher fantástica, de marcante presença na vida fraterna de Bauru. Até candidato era definido ali. Era o pólo mais importante da cidade”.
Desta forma, Nicola, para convencer os policiais que Eny merecia manter seu negócio, levou o juiz Stucchi para conversar com as famílias que moravam perto do bordel. Ele queria ouvir elogios sobre o comportamento da cafetina e conseguiu facilmente. Depois, em uma fala para um programa de rádio bauruense, o magistrado Octávio Stucchi afirmou que permitiu a reabertura da zona de meretrício de Eny. Visto que o bordel era um mal necessário ao qual protegia as famílias que estavam por lá, algo que mostrava muito sobre a sociedade da época.
Muitos políticos estiveram na Casa de Eny em busca de votos, como Jânio Quadros, durante sua campanha eleitoral de 1960, que fez uma visita puramente por fins políticos, procurando apoiadores na região, apoiando-se nas boas relações de Eny.
A ascenção
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Imagem: Editora PLaneta
Sexo sempre foi um tabu em nosso país, mas a forma como as pessoas se comportam em relação a isso socialmente foi o motivo tanto para que Eny conseguisse crescer nas décadas de 1960 a 1980, quanto para que ela caísse nos anos 1990. Quando sexo era aceito apenas depois do casamento, os bordéis eram responsáveis pelo início da vida sexual da maior parte dos homens; era algo comum. Sem liberdade sexual, as zonas ficavam cada vez mais desejáveis.
Investir nisso levou o Eny's Bar para seus anos de ouro entre 1963 e 1983 e, com suas características únicas, se tornou um bordel nível aristocrata, muito diferente de qualquer casa com os mesmos fins, por isso, sua fama foi tão grande.
Além do tamanho, o bar chamava atenção pelos cuidados que a cafetina tinha com as moças, mantendo atendimento médico no local, tanto para os homens antes que entrassem, quanto para as prostitutas que esperavam por lá. Tendo a garantia da saúde das garotas, ela também as mantinha sempre bonitas e elegantes, como se fizessem parte da alta sociedade bauruense, o que chamava atenção da elite da cidade e tornava o local cada vez mais caro e chamativo.
Eny tratava as jovens como suas filhas, com carinho e dedicação, encorajando-as a buscar educação e defendia a importância delas possuírem título eleitoral e de participarem de decisões sociais e políticas. Para as trabalhadoras, aquele era um ambiente familiar; elas eram suas rosas vermelhas, seu buquê de garotas.
Dessa forma, o Eny's Bar oferecia tudo do bom e do melhor: quartos grandes, mulheres bonitas e sigilo absoluto. Porém, existiam boatos mais obscuros sobre a cafetina, citados no livro-reportagem de 2002, escrito por Lucius de Mello. Na obra, o autor destaca os rumores de que em consultas guiadas pela madame, ela pedia a seus médicos de confiança realizarem procedimentos clandestinos, como esterilização. Com mulheres estéril, o bordel de Eny garantiria a ausência de gravidez, mantendo as meninas no trabalho e aumentando a clientela, tudo para alcançar seu grande sucesso e sua tamanha riqueza.
O declínio
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Imagem: autor desconhecido? Facebook: @bauruquenaovivi
Eny foi uma personagem da história contemporânea que ajudou muita gente. Seus pais costumavam ignorar sua profissão, não reclamavam, mas também não faziam questão de estar presentes na vida da filha, mesmo ela os ajudando em seus anos de auge com o Eny's Bar. Sua avó também recebia esse auxílio, porém, dizia ter perdido a neta e julgava as decisões dela. Em Bauru, conhecida como uma pessoa admirada e amada, muitos cidadãos com poucas condições batiam à sua porta pedindo ajuda, e esse foi um dos motivos para que nunca fosse totalmente esquecida.
A cafetina pensava, acima de tudo, como uma empresária, que fazia o que podia para se manter rica e cheia de sucesso. Porém, os tempos mudam e a sociedade se transforma. Em 1982, o Eny's bar foi desativado, sem clientes, sem utilização.
A forma como as pessoas encaram o sexo foi um dos principais fatores pelo qual Eny sucediu com seu bordel e, da mesma forma, o motivo que desmoronou todo seu império. A ascensão dos motéis e dos anticoncepcionais, além da liberdade sexual no país tornou os bordéis uma opção menos atrativa entre as pessoas.
Eny Cezarino sabia das diferenças sociais que a afetaram e, já mais velha e doente, dizia que não aceitava ter perdido para amadores. Seu estabelecimento, tão bem construído e investido, foi apagado junto com sua morte e, hoje, está em um terreno abandonado na cidade que, algumas vezes, é alugado como uma chácara para festas. Ela faleceu sem dinheiro para tratar sua diabetes, sozinha em uma cama de hospital, e foi enterrada no Cemitério Parque Jardim do Ypê, em Bauru. Atualmente, o único buquê de flores que a cafetina mantém é feito das rosas vermelhas deixadas sobre seu túmulo.


