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Pixação:
O grito silencioso

Por: Ana Luiza Moura

Mano a Mano com Sika

O picho e o pixo são duas formas de expressão urbana, muitas vezes confundidas, mas que possuem distinções cruciais. O picho está ligado à ação de criar letras, símbolos ou imagens em locais urbanos sem permissão, sendo rotulado como crime ambiental devido à sua execução não autorizada e aos danos que pode acarretar. 

Por outro lado, o pixo, com "x", é um movimento de arte urbana. Segundo a UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), ele tem suas  raízes na década de 1960, no período do regime militar, sendo utilizado para criticar a ditadura e simbolizar a resistência. Desde então, tornou-se uma expressão artística que busca ocupar as cidades com desenhos e inscrições nas paredes. Embora seja reconhecido como um meio de expressão cultural e social de protesto, ele permanece ilegal em todo o território nacional devido à sua natureza não autorizada.

O Mano a Mano desta edição é com Sika, um pixador bauruense de 18 anos, que utiliza o vulgo “Fonsika” ou “Sika” .Ele é um dos fundadores da grife Opostos, uma aliança de grupos de pixadores ativos na cidade de Bauru. É possível identificar, espalhadas pela cidade do lanche,  as pixações de Sika. Seu estilo de letreiro geralmente consiste em uma base de letra comum com os pontos ligados, tendo como inspiração, Sete Artes, Gano, Decora, Mágico e Smoke.

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Sobre o Mano

Nalu: Quando sua história com o pixo começou?

Sika: O meu primeiro contato com a pixação foi de 2016 para 2017, mas eu comecei a pixar mesmo já era 2020. Eu comecei depois que eu peguei gosto pelo grafite. Só que aí eu vi que o grafite era pra deixar a cidade bonita e a pixação era pra corromper o sistema, tá ligado? Eu estava precisando disso pra mim, percebi que tem muita coisa acontecendo e que não é assim. O pixo, ele me proporciona muita adrenalina, e é uma coisa que nóis gosta muito. Boa parte dos pixadores gostam de pixar pela adrenalina e também para ter visibilidade, pela liberdade de expressão, porque isso aí é uma arte pra gente.


 

Nalu: Onde você aprendeu a pixar?

Sika: Eu aprendi sozinho, mas teve alguém que me ajudou, tinha uns caras que me ajudou, uns caras de referência, tipo, acusados, tá ligado? O Sete Artes, referência zica pra caralho. E meu pai também era pixador, ele me contou. Hoje eu não tenho mais contato com ele, mas ele disse que era pixador, e pra mim ele era uma boa pessoa, e aí eu achei legal e comecei a pixar principalmente para agradar ele. Aí começou a brincadeira, nunca mais parei. Começou o vício. Começou o vício, e é isso.


 

Nalu: Sua visão sobre o pixo mudou ao decorrer do tempo?

Sika: Mudou, mudou bastante, porque primeiro quando eu entrei nesse mundo da arte, eu entrei por causa do grafite, e minha inspiração naquela época era o RESK12. E depois eu fui pro pixo, mais por causa da adrenalina, porque era um negócio proibido, molecão, todo mundo gosta de bagulho proibido, né? E aí, depois, eu fui vendo que aquilo era uma manifestação, uma manifestação de rua que a gente faz com as nossas próprias mãos, tá ligado? Porque é arte proibida, e é uma coisa que a gente faz, que muita gente não gosta, muita gente gosta, muita gente não consegue ler. Pra mim ela já foi arte, e hoje é uma anarquia. Então, muda muito de pixação para pixação. Tem gente que pixa pra aparecer, tá na mídia mesmo, incomodar o governo falar, “é nóis que tá aqui”, entendeu? Tem gente que pixa por moda, acha que é um bagulho pra se incluir nesse grupo aí pra fazer nada da hora, pra ganhar umas curtidas no TikTok. Mas sim, tem gente que pixa pela anarquia. Minha visão mudou, mudou bastante, porque eu entrei achando que era uma coisa e eu vi que era completamente outra, tanto que eu cheguei até tomar “presta atenção" por causa disso.


 

Nalu: Você acha que você é inspiração para alguém?

Sika: Olha, então, saber, eu não sei se eu sou inspiração pra ninguém, mas eu acredito que um dia eu vou me tornar, que eu quero estar lá no topo um dia, entendeu? Mas eu acredito que muitas pessoas seguem meus passos por ser o cabeça da Opostos, tá ligado? Eu acho que muitas das pessoas que estão lá dentro me enxergam como uma referência, eu acho que isso é bom pra mim.

 

Nalu: Houve alguma história que te marcou?

Sika: As fugas me marcam, fuga é direto, parça, direto, principalmente de “zé porva”, mano, direto, direto. Teve uma que pegou boa parte da Opostos, encostou a polícia e enquadrou, e um de nóis estava em cima de um ar-condicionado ainda, o outro em cima do pico e eu metendo marcha, cê é louco? Mó bololô isso aí, mas é uns bagulho que marcam mesmo. É um bagulho que tipo, cê sabe que vai acontecer qualquer dia, na verdade é um bagulho que cê tem que saber, se você vai pixar, pode moiar, cê pode apanhar, cê pode ser pintado.

 

Nalu: Tem algum padrão de pixo?

Sika: O padrão de pixo dizendo são as modalidades, cada um se afilia mais com uma. Tem gente que gosta mais de fazer escalada, tem gente do rapel, da janela, escada, têm pessoas que só fazem de rolinho, alguns usam cap transversal, o cap é o biquinho da lata, que muda o traço, fino, mais grosso, é muito da pessoa.

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Nalu: Qual seu objetivo com o pixo, ele mudou com o decorrer do tempo ?

Sika: Sim, o meu objetivo era “ibope”, alcançar alguém, pensa: “vou pixar aí para os caras verem que eu sou foda”. Mudou, mudou, que agora nóis pega mesmo só para provar que nóis é mais foda que o sistema, entendeu? O cara fala assim: “ah, vocês não vão conseguir subir lá”, nóis sobe e ainda pixa lá em cima. Para os caras verem que nóis escala na unha, tá ligado? Mudou muita coisa. Hoje em dia a gente não pixa mais por manifestação, tipo eu, eu pixo para deixar meu nome, para todo mundo ver meu nome e falar assim: “esse cara aí é foda, está lá em cima, subiu sem escada, sem nada. Fez o rolê dele, não implicou com ninguém”. Mas antes era por manifestação, hoje é só por visibilidade mesmo.


 

Nalu: O quanto o movimento de pixadores é importante para a sociedade ?

Sika: Então, a importância da pixação ao meu ver para a sociedade, para política e para os mano de quebrada, é para a molecada crescer na favela e ver que o pixo é comum e não marginaliza. Para a sociedade ver que quando nóis estamos metendo um pixo pode ter um policial na nossa bota aí querendo falar merda, mas pode ter outra coisa acontecendo em outro canto da cidade, é um grito, um grito de socorro. Muitas das vezes as pessoas fazem isso, como uma válvula de escape para um problema que a pessoa não consegue abrir, tá ligado? e demonstrar tudo numa pixação. É mano, é um bagulho louco que nóis demonstra sentimento, é um grito que vem de dentro, é um grito silencioso. E nóis gosta de deixar o “grandão” para a cidade ver, ver que nóis está lá mesmo e é importante para eles verem que não é só eles que estão no poder, nóis também estamos.


 

Nalu: O que de mais bonito o pixo te proporcionou ?

Sika: Família, mano. Amizade, lealdade. Você encontra os mano na pixação, sabendo que um dia você pode cair de cima de um prédio e o seu parceiro da pixação vai estar lá pra te ajudar, tá ligado? É isso mesmo, mano, porque eu acho que o que o pixo mais proporcionou para mim foi, primeiramente, momentos, muitos momentos únicos. Daqui 20 anos, nóis vai tá com filhos, e falar assim: “Ó, já escalei um prédio por fora, vivi a adrenalina e o perigo”.


 

Nalu: Em 2017, o João Dória, o prefeito de São Paulo da época, mandou apagar as pichações e grafites da Avenida 23 de maio, você considera essa política preconceituosa?

Sika: Então, provavelmente o prefeito fez isso falando que poluia a cidade, e mandou pintar tudo, mas e o dinheiro que ele poderia distribuir para uma verba escolar, para arrecadar umas cestas básicas? Mas não, o cara tá pintando pixação que incomoda ele. Nóis quer incomodar e se ele continuar fazendo isso aí, vamos querer ainda mais. É guerra e poucas ideias, pique aquela música lá, mano, que os pixador fez lá (Pixadores 2 - Nocivo Shomon, 2016, canção escrita por pixador para falar na importância do pixo para a sociedade).

“Pixar é crime onde a arte é corrupção”

Nalu: O que o pixo significa para você hoje? 

Sika: Acho que hoje pra mim a pixação é como se fosse uma válvula de escape, a liberdade que eu não tive. É um bagulho diferente, é o jeito que eu vivo, é uma forma de vida para mim, não é como se fosse um hobbie, é um bagulho que eu tenho comigo, que vai ficar comigo querendo ou não. Quando a gente para de pixar, ou os parceiros chama, ou você sente vontade, a mão coça para pixar. Pixação é um modo de vida. Depois que você desce do prédio, olha o pixo e você vê o que você fez, é um bagulho único, um sentimento único.  


 

Nalu: O que você falaria para os caras que estão nesse corre ou querem estar?

Sika: Eu acho que se eu vejo um cara que não é pixador e quer tentar ser, mano, primeiro ele tem que ter um motivo. O motivo é atacar o sistema? Então, você tem que fazer isso aí. Agora se você acha que você vai entrar pra pixação para ganhar uns likes, para pagar de pá, aí nem encosta, mano. Agora se for pra pixar mesmo, para quebrar a cidade, para somar, o que eu tenho pra falar é que, se você quer, seja bem-vindo à família. Independente de tudo, pixação é união. 

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“Tem pessoas que  esquecem do verdadeiro motivo porque estão pixando, que é 

atacar o sistema, não entre nóis mesmos”

Sobre a Opostos

Nalu:  De onde veio a ideia de criação da Opostos?

Sika: Então, a ideia da criação veio por aí também, lá pra quando eu comecei a pixar mesmo. A Opostos teve quatro fundadores, a gente escolheu o nome Opostos, porque é o oposto do sistema, entendeu? Nóis quer atacar os cara e pá, foi por isso mesmo, e aí foi tomando rumo. Os outros fundadores foram saindo, eu falei assim, mano, eu vou levar isso daqui pra frente, tá ligado? Porque é minha família e é da hora ter isso, porque boa parte da minha família não apoia. A minha mãe, minha coroa, ela gosta das minhas artes, os grafitezinhos, já meu pai abomina o que eu faço, não gosta de mim de jeito nenhum. A única que me apoia e não é nem me apoiar, ela só fala pra Deus me livrar e me guardar quando eu sair de casa, é minha avó, minha avó me aceita. E aí ter uma família dentro de uma grife é muito louco, é um bagulho diferente, é único mano, porque você sabe que qualquer um que tá lá dentro vai pular na sua bala, vai fazer acontecer. Ninguém vai te abandonar lá dentro, e nóis estamos falando porque nóis já passamos por grifes e grifes. Querendo ou não, nóis temos uma família aí, uma grande família por Bauru.

 

Nalu: Como funciona para se tornar membro das grifes de pixo, como a Opostos? Tem líderes?

Sika: Muitas das vezes nas grifes, para você entrar, você tem que fazer por merecer. É um bagulho que não é você que pede pra entrar aqui, você é escolhido. Se alguém quer entrar numa grife, você conversa com o cabeça, a gente desenrola num point, conversa um pouco, a gente sai pra rolê junto, fala sobre, você entende da história do cara. Cada região tem uma cabeça, não é líder que chama. Porque família não é só aqui em Bauru, você pode estar fazendo parte de uma família que tem lá na 043 [DDD do Paraná], em outro estado, igual a que nóis tá ultimamente, é um grupo vasto, mano, tem em qualquer lugar.

 

Nalu: Tem alguma competição entre as grifes?

Sika: Competição de grifes já existiu bastante até inspirou um filme chamado Urubus, [Direção de Cláudio Borrelli, 2021]. Hoje em dia não tem tanta. E a briga começa quando algum pixador atropela o outro, tipo, jogar em cima do pixo da pessoa, é considerado uma falta de respeito. Eles brigam assim, pixos e pixos. Aí o cara vai lá e vê um pixo que o cara pegou, e pega mais alto.

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