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Ser e estar: O sentimento de não pertencimento da comunidade LGBTQIAP+

Apesar da diversidade universitária, Bauru ainda carece de locais onde a comunidade LGBTQIAP+ possa expressar sua arte, ser acolhida e sentir-se pertencente

Por Gustavo Oliveira

Expressar sua arte, reconhecer os seus e se sentir confortável: esse é o desejo da comunidade LGBTQIAP+ na busca por ocupar espaços e ser representada. Dentro da sociedade, encontrar um lugar onde a identidade seja respeitada e reconhecida é um desejo de todos; porém, para pessoas não cisgênero ou não heterossexuais, isso é ainda mais crucial. Apesar dos avanços sociais e da maior visibilidade nos últimos anos, a falta de locais apropriados para se expressar e celebrar a diversidade e as identidades artísticas ainda é uma realidade. Além disso, torna-se necessário discutir sobre questões de acolhimento e segurança.

 

O choque de culturas e a herança conservadora da sociedade em que vivemos, mesmo que amenizada, impactam diretamente a forma de expressão daqueles que estão fora dos padrões. Homens de cropped e maquiagem? Mulheres  de cabelo curto e roupas masculinizadas? Dizer que não se importa vai muito além de um discurso — para pessoas LGBTQIAP+, é necessário ser visto na prática. A aceitação e a representatividade não se limitam a palavras, mas se manifestam em ações concretas no espaço público.

 

A “Cidade Sem Limites”, apesar de receber universitários de todo o país e, principalmente, da região interiorana do estado de São Paulo, contempla em seus eventos culturais e grandes festas um público majoritariamente cis e heterossexual. A comunidade LGBTQIAP+, por sua vez, enfrenta uma crescente dificuldade: a escassez de espaços dedicados às suas produções culturais, de acolhimento, encontro e pertencimento.

Imagem: Gustavo Oliveira

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Diante desse cenário, surge a necessidade da criação de espaços e eventos voltados para pessoas LGBTQIAP+. A falta de visibilidade e de lugares seguros para se expressar livremente cria barreiras para a autoaceitação e a integração social. Um exemplo disso foi a criação da festa "Sai, Hétero", organizada por moradores de uma república estudantil regional chamada Borogodó. O principal objetivo da festa é incentivar artistas LGBTQIAP+ a manifestarem suas artes, seja por meio de exposições, músicas, performances e muito mais. 

 

"Queremos criar um espaço onde somente a arte dessas pessoas importe e, é claro, também proporcionar diversão, encontros, trocas e afetos entre os membros da comunidade", afirma Anderson Paixão Costa, aluno da UNESP e um dos representantes do evento. 

 

A grande quantidade de festas e eventos universitários em Bauru não acompanha a vasta diversidade que a cidade possui. O nicho de entretenimento não contempla a cultura minoritária e permanece sustentado pelo status quo da sociedade; isso inclui não apenas a comunidade LGBTQIAP+, mas também as culturas periféricas.

 

“Faz bastante falta eventos nos quais nossos corpos são maiorias, pois é uma oportunidade de fortalecer o senso de pertencimento, espaço seguro, seja para expressar a sexualidade, os gêneros dissidentes e outros pontos comuns da vivência dessas pessoas”, complementa o estudante Anderson Costa.

Imagem: Gustavo Oliveira

Trazer à tona artistas LGBTQIAP+ torna-se igualmente um desafio, a defasagem de oportunidades para profissionais da cultura de entretenimento permanece. DJs, drag queens, performances, cantores, entre outros ainda enfrentam dificuldades em se inserir no mercado.

 

Segundo a DJ e drag queen Lolla Viola, interpretada pelo artista Felipe Moratto, os desafios para se manter no cenário são constantes, principalmente devido à estereotipação e à falta de conhecimento dos contratantes em relação às diversas formas de expressão artística. 

 

“As pessoas quando pensam em drags, imaginam o famoso ‘bate-cabelo’, as performances caricatas em cima do palco. Isso se expande para os contratantes, limitam um estilo de música específica, para um público específico”, diz Lolla Viola.

 

A artista conta que, no início da carreira, precisou se adaptar ao mercado, que exigia somente um gênero musical na maioria dos eventos, o funk. Com o amadurecimento da profissão, a DJ passou a impor sua identidade e estilo próprio, mesclando entre o funk e a música pop.

 

O escasso mercado de trabalho, sobretudo para pessoas transsexuais, direciona para trabalhos marginalizados e pouco valorizados. Segundo Lolla, não há demanda para trabalhar com arte no interior, como DJs, performers e demais profissões do cenário cultural e de entretenimento. O maior concentrado de oportunidades para seguir nesse caminho, permanece, especialmente, na cidade de São Paulo.

 

Conforme a drag queen, as casas noturnas e as comissões de festas não estão preparadas para acolher a comunidade. Mesmo que inicialmente haja manifestações de intolerância contra discriminações e preconceitos, quando esses crimes ocorrem, dificilmente há ações práticas que respeitem nossos corpos e formas de expressão.

 

“Muitos dos contratantes só pensam na parte da atração, não pensam que para receber um artista LGBTQIAP+ ou o público, precisa de uma estrutura, precisa instruir os seguranças e funcionários, precisa agir em situações de homofobia e transfobia. Já presenciei situações em que, mesmo enquanto profissional, claramente eu não era bem-vinda”, complementa a DJ Lolla Viola.

 

O desconforto em relação à organização dos eventos é compartilhado pelo público. De acordo com o estudante Anderson Costa, “a maioria das festas frisa que é contra violência LGBTQIAP+fóbica, um ponto bastante válido e importante, mas não é algo que baste para nos sentirmos bem acolhidos. Cremos que valorizar a arte de pessoas da comunidade e organizar outras formas de nos receber, como, por exemplo, tornar gratuita a entrada de pessoas trans, tornaria mais efetivo o acolhimento e a representatividade”, afirma.

Imagem: Gustavo Oliveira

Seguridade e garantia de direitos

 

Segundo a advogada Amanda Bassoli, presidenta do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual (CADS) de Bauru, vinculado à Secretaria do Bem Estar Social (SEBES), garantir  a segurança e promover a liberdade de expressão à comunidade LGBTQIAP+ é um dos principais desafios enfrentados pelo conselho.

 

“É muito complicado ser uma pessoa LGBTQIAP+ e frequentar um lugar majoritariamente heteronormativo. Um dos desafios do conselho é criar um ambiente onde os artistas que se apresentarão e as pessoas que comparecerão ao evento se sintam seguras. Isso inclui desde a segurança física, quanto ao acolhimento dessas pessoas nesses espaços, respeitando seus pronomes, garantindo banheiros que respeitem suas identidades de gênero. Coisas mínimas, mas que asseguram um ambiente acolhedor”, comenta a presidenta.

 

Ainda de acordo com a advogada, é perceptível a diferença entre eventos que não possuem em sua organização pessoas LGBTQIAP+, pois a maioria não possui conhecimento e capacitação para lidar com as diversas formas de expressão, que podem, por sua vez, representar questões mais delicadas da sociedade.

 

“Em um dos eventos que organizamos, tivemos artistas diversificados, cada um com sua própria linguagem e estilo. Algumas apresentações foram chocantes e dramáticas, abordando temas sensíveis como o HIV, enquanto outras focaram no entretenimento com um tom mais alegre. Por isso, os principais pilares que devemos nos atentar são garantir a segurança e criar um ambiente onde todos se sintam livres para se expressar, recebendo adequadamente artistas e público”, complementa Bassoli.

 

O CADS, por sua vez, tem como objetivo acompanhar a implementação de políticas públicas e servir como ponte entre o poder público e a sociedade civil. Além das questões culturais e de entretenimento, a comunidade LGBTQIAP+ enfrenta desafios socio-políticos significativos, principalmente na garantia de seus direitos e assistência social.

 

“Acompanhamos várias situações em que pessoas trans, por exemplo, não são atendidas adequadamente em ambientes públicos, como na UPA, UBS, ou ao registrar um Boletim de Ocorrência. É necessário criar ações que acolham e garantam os direitos da comunidade LGBTQIAP+”, afirma Amanda Bassoli.

 

Como alternativa para essa demanda, junto ao Ministério Público, movimentos e coletivos, o CADS possui uma proposta para criação de um canal de denúncias, além de um fundo monetário que garanta a efetivação das ações do conselho.

Imagem: Gustavo Oliveira

Como furar a bolha?

 

A comunidade LGBTQIAP+, em todo significado da palavra, busca se proteger ao criar um corpo social que se conecta com lugares e pessoas semelhantes, que compartilhem da mesma realidade e compreendam seus ideais, sem julgamentos ou condenações. Diante disso, formam-se bolhas onde as pessoas passam a frequentar recorrentemente os mesmos espaços, com o mesmo público e, muitas vezes, deixando de usufruir  de ambientes que deveriam ser para todos.

 

Mas como enfrentarmos isso? Como nos fazermos presentes em espaços onde não somos maioria? Onde não somos bem-vindos? Este, com certeza, é o principal desafio.

 

“Entendemos a importância da ocupação desses espaços, de ‘furar a bolha’, mas quem está disposto a isso? A que custo? Quem está disposto a receber a revolta, ódio e discriminação de fora da comunidade que criamos, para que no futuro, os outros possam ocupar [esses espaços] tranquilamente?”, completa Bassoli.


A manutenção de espaços de conforto e segurança para a comunidade LGBTQIAP+ é vital para sua saúde mental e emocional. Esses locais permitem a livre expressão e o apoio mútuo. Assim como, surge a necessidade de proporcionar oportunidades para artistas LGBTQIAP+, permitindo disseminação e consumo da cultura. É importante questionar se os espaços que frequentamos são realmente acolhedores e respeitosos. Além de levantar a bandeira, é essencial praticar a empatia, colocando-se no lugar do outro e, assim, criar um verdadeiro sentimento de pertencimento.

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