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Resistência e estética:
a arte de trançar cabelos como valorização da identidade negra
O ato de trançar cabelos não é apenas um trabalho estético, é uma expressão artística que enaltece a cultura afro e reforça a identidade e a autoestima de um povo historicamente marginalizado
Por Gisele Guedes
A cultura africana das tranças representa um legado histórico em questão de ancestralidade e resistência do movimento negro. As origens desses penteados estão intimamente ligadas à construção da autoestima e ao empoderamento de pessoas negras, desafiando padrões de beleza eurocêntricos que marginalizam características e estéticas africanas. As tranças são um símbolo de resistência frente aos horrores do colonialismo e um retrato da luta decolonial.
As tranças com cada curva, desenho ou acessório, trazem consigo brilho e força para quem as carrega. Para as mulheres pretas, as tranças afro significam muito mais do que um simples penteado; são um símbolo de conexão cultural com as tradições africanas. Nesse contexto, as profissionais especializadas nessas tranças desempenham um papel fundamental ao oferecer um serviço essencial à comunidade afro-brasileira e ao preservar a herança cultural africana.
Imagem: Carol Viudes/ Acervo pessoal de Gabriela Meireles

O primeiro contato com a arte de trançar
Gabriela Meireles, trancista e mentora de tranças em Bauru, explica que conheceu o movimento das tranças por meio do hip-hop, outro importante movimento da cultura negra, e que aderiu ao uso delas após passar por um corte químico por uso excessivo de tintas no cabelo.
“Voltei a usar as tranças durante um ano, e ali vi que era uma opção excelente para mim e para minha vida no dia a dia, de não ter preocupação com o meu cabelo”, afirma Gabriela.
A artista conta que, naquele momento, reconheceu o poder das tranças afro para a autoestima da mulher preta e que logo buscou se profissionalizar no ramo. De acordo com a trancista, a expressão artística das tranças é reconhecida atualmente, mas os artistas só são valorizados por aqueles que realmente vivem as tranças e aderem a elas.
“Há outro grupo de pessoas que usam [as tranças], mas não sabem seu valor, e, esse grupo, muitas vezes, já não reconhece o profissional como um artista”, completa a trancista.
Willianna Paola, trancista em Bauru com mais de 20 anos de experiência no ramo, relata que teve o primeiro contato com a arte ainda na infância, aprendendo com a mãe, que trançava os cabelos dos familiares. “Observando ela trançar, me despertou a vontade de aprender”, explica a profissional.
Ao ser questionada sobre uma lembrança especial associada às tranças, Willianna relembra que aos domingos, sua família se reunia em casa para trançar cabelos. Crescendo nesse ambiente, ela aprendeu a trançar os cabelos de seus familiares.
Até hoje esse hábito é mantido e transmitido para as futuras gerações. A trancista afirma que as tranças não são mais apenas um acessório ou algo usado ocasionalmente; agora, elas fazem parte de sua identidade, e ela não se imagina mais sem esse penteado.
Além da estética: Uma ferramenta de “armadura e expressão”
Trançar cabelos é um legado que vem sendo passado de geração em geração por diversas pessoas pretas, que mantém viva essa tradição cultural ao reconstruir autoestimas e fortalecer a identidade e a luta diária das mulheres pretas.
Willianna afirma que vê a relação das tranças com o empoderamento da identidade negra como uma forma de “armadura e expressão ". “Trança para o negro não é moda ou mais um penteado, é também uma forma de ‘falar’, de se colocar diante da sociedade. Por meio dessa arte, temos alcançado um novo lugar de destaque para os negros”, explica a trancista.
Gabriela destaca que para as pessoas pretas, as tranças afro representam toda a identidade e ressalta a resistência social do penteado, especialmente para as mulheres. “Para as mulheres pretas, sinto que a trança é mais forte e essencial, pois na maioria das vezes, elas não se sentem confortáveis com o cabelo crespo/volumoso e aderem às tranças para ajudar na autoestima, na praticidade para o fio crespo. Pois infelizmente, ainda temos preconceitos enraizados na sociedade que fazem com que as pessoas pretas se sintam mais retraídas para soltar seu volume”, relata a mentora.
Luane Bento dos Santos, Doutora em Ciências Sociais pela PUC-Rio e pesquisadora das relações étnico-raciais, enfatiza o papel das trancistas no fortalecimento da identidade negra. “São elas que tecem memórias, esperança, ouvem, reconstroem autoestimas fragilizadas de pessoas que carregam traumas decorrentes do racismo. A trança em si pode ser apenas um objeto, contudo, é repleto de significados sociais, políticos e identitários que damos aos trançados e quem os faz é uma pessoa, então essa pessoa que é uma figura importante porque é ela que promove a ação”.
A pesquisadora menciona que a cultura de trançar cabelos nunca esteve tão viva como atualmente, indo além das dimensões dos espaços domésticos e da própria comunidade negra, tornando-se um penteado usado por pessoas negras e não-negras. A docente explica que essa expansão no uso e a politização dos corpos e das imagens está ligada ao ativismo político e aos embates que o movimento negro provocaram e ainda provocam na sociedade.

Imagem: Carol Viudes/ Acervo pessoal de Gabriela Meireles
Luane também aborda os principais desafios enfrentados por aqueles que mantêm viva essa tradição. “Temos vários casos de racismo estético, ou seja, o racismo que incide justamente nesta expressão do belo, da identidade a partir de um repertório artístico cultural. Diversos processos e denúncias de pessoas negras que foram para o trabalho com os cabelos estilizados com tranças, coques ou dreadlocks e foram convidadas a se retirar do serviço ou a retirar o penteado para não perder o serviço. Literalmente uma metodologia de terror e perseguição”, explica a docente.
Luane menciona que o cabelo crespo, seja alisado, trançado ou black power, sempre é alvo de discriminação devido aos padrões da colonialidade, que os marginalizam e colocam como inferiores. Contudo, particularmente as tranças possuem um laço profundo com a ancestralidade africana, sendo ressignificadas atualmente como um símbolo de resistência e idetidade cultural na luta pela valorização e reconhecimento das heranças afrodescendentes.
Ancestralidade e legado histórico: A conexão das tranças com a cultura africana e sua ressignificação
Luane explica como as tranças afro se conectam com a história e a cultura africana, e afirma que as tecnologias capilares não são as mesmas que os ancestrais africanos usavam quando chegaram forçadamente ao Brasil Colonial. Esses penteados, embora enraizados nas tradições culturais africanas, foram transformados e ganharam novos significados ao longo do tempo. “No entanto, elas são ressignificações desse legado cultural, são exemplos nítidos das trocas, da junção de inúmeras civilizações africanas que aportaram forçadamente através do tráfico transatlântico”, esclarece a pesquisadora.
A docente afirma que as tranças e outros penteados afros, que relembram os estilos tradicionais africanos não são exatamente os mesmos, mas ressignificações desses penteados.
“Não tivemos a chance de manter nossas práticas conforme fazíamos na África, o que fizemos aqui é uma colcha
de retalhos de fragmentos de inúmeras culturas e elas também estão expressas na arte de trançar cabelos”, enfatiza Luane.

Imagem: Acervo pessoal de Willianna Paola
Historicamente, as tranças também representam questões relacionadas à religião e à espiritualidade em muitas culturas, refletindo um elo de fé e ligação com deuses africanos. Luane ressalta, que no contexto social e político atual, os cabelos passam a ser mais do que símbolos de religiosidade e espiritualidade; eles ganham reconhecimento por intelectuais e militantes negros.
Gabriela Meireles destaca a importância de conscientizar-se sobre a cultura africana como um passo fundamental para quem quer aprender a arte de trançar. “Entender que a trança afro é uma arte de milhares de anos, e com resistência, ela persiste até hoje na cabeça das pessoas, ainda mais com a ascensão da mídia. Então a cultura desse mundo é a primeira coisa que a trancista tem que entender”, frisa a artista
Tranças, cabelo black e representatividade da cultura afro-brasileira
Existem benefícios que podem ser obtidos por meio do ato de trançar, tanto pelas técnicas utilizadas que ajudam na proteção dos fios, quanto pela praticidade de ter um cabelo arrumado e pronto para sair.
De acordo com a trancista Rogelly Nicácio, as tranças mais populares entre seus clientes são as nâgo, um estilo de trança rasteira que fica bem próxima à raiz do cabelo, que deixa os cabelos com uma aparência compacta, bonita e bem protegida. A prática de trançar contribui para o processo de autoconhecimento da cliente, desde o momento de ir ao salão de beleza até a compreensão dos cabelos e suas formas. Esse processo de autocuidado fortalece a aceitação e a autoestima da mulher preta.
Taciane Lourenço faz uso das tranças desde os 15 anos de idade. A bacharel em direito afirma que as tranças valorizam seus traços afrodescendentes e a ajudam na praticidade e na valorização da sua autoestima. Taciane comenta amar o quanto a trança representa o povo negro historicamente.
“Hoje vejo que temos mais espaço para falar e mostrar a cultura afro-brasileira com as tranças tanto quanto o cabelo black. Nosso povo tem ganhado mais espaço e se sentindo mais confortável para se apresentar em qualquer espaço sem perder nossas raízes”, coloca Taciane.
Taciane revela que começou a trançar os cabelos quando passou pela transição capilar e na época não era comum ver pessoas usando tranças. A bacharel em direito comenta sobre as mudanças na aceitação das tranças afro ao longo dos anos, destacando a crescente visibilidade da mídia aos diversos tipos de tranças. A partir dessa influência midiática, atualmente pessoas pretas e brancas frequentemente trançam os cabelos, além do aumento na procura por esse estilo entre as pessoas que estão passando pela transição capilar.
“O que precisa mudar, na minha opinião, é a visão de que pessoas pretas tem o cabelo bonito apenas quando está trançado. A trança deve ser a escolha pelo fato da pessoa gostar e pela versatilidade e não por julgamentos quanto ao cabelo cacheado/crespo. Eu amo meu cabelo trançado e a cada mês mudo o tipo de trança, mas também amo meu black”, finaliza Taciane.
A cultura das tranças, com suas versatilidades estéticas e significados profundos é uma tradição que moldou e continua a moldar a identidade do povo preto, sendo ressignificada como um mecanismo de resistência e sobrevivência em uma sociedade marcada por um passado colonial.
Todos os penteados acabam impactando as pessoas de alguma forma; ter um desenho exposto na sua própria cabeça chama a atenção de todos ao redor. Muitas pessoas ficam impressionadas ou inspiradas com aquela expressão artística, especialmente ao considerar a identificação de uma pessoa preta por meio desse ou qualquer tipo de arte.
A arte de trançar é uma celebração incessante da identidade negra e é mais do que um trabalho estético; é um exercício de orgulho, força e criatividade.


