Margem

Rimas, arte e transformação:
a revolução cultural da Batalha do Bosque
Parceria entre organizadores de batalhas de rimas e o Sesc inaugura um novo capítulo na cena cultural de Bauru
Por Isadora França
No dia 28 de março, o Sesc de Bauru foi palco da estreia da Batalha do Bosque, um evento inédito resultado da parceria entre os organizadores locais das batalhas de rimas e a equipe de programação do Sesc. Além das aguardadas batalhas de rimas, o evento ofereceu uma variedade de atividades, incluindo sarau, debates e sessões de grafite. A colaboração entre os organizadores e o Sesc ecoa a crescente popularidade das batalhas de rimas na cidade e busca melhorar a estrutura dos eventos e atrair um público mais amplo. Essa iniciativa fortalece o movimento cultural local e promove o acesso à programação diversificada do Sesc, consolidando-o como um espaço de expressão artística e cultural na comunidade.
As batalhas de rimas, conhecidas por sua energia vibrante e pela riqueza poética das letras de rap, têm conquistado cada vez mais espaço em Bauru. Originadas nos movimentos de contracultura nas décadas de 1970 e 1980 nos Estados Unidos, essas competições de improvisação verbal se tornaram uma manifestação cultural significativa em diversas partes do mundo. Em Bauru, elas ganharam destaque não apenas como entretenimento, mas também como forma de expressão artística e meio de promover a inclusão e a diversidade.
Kethelin Andrade, espectadora assídua das batalhas de rimas da cidade, compartilha sua perspectiva sobre o impacto desses eventos em sua vida e na comunidade local. Desde os 11 anos de idade, ela se envolveu com a cultura de rua do município, inspirada pela participação de seus familiares em atividades como dança, hip-hop e teatro. Ao longo dos anos, acompanhou as batalhas locais e também eventos similares em outras regiões, através da internet. Sua trajetória reflete a influência que a cultura de rua tem exercido sobre os bauruenses ao longo das décadas.
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Imagem: Isadora França
Bauru e a cultura de rua
Apesar do crescimento exponencial da popularidade das batalhas de rimas na cidade ao longo dos anos, a relação de Bauru com a cultura de rua remonta a décadas passadas. Vinícius Thomas, mais conhecido como Vinão Mandinga, produtor cultural e um dos organizadores das batalhas de rimas de bairro, compartilha que desde os anos 1990, grupos de hip-hop locais já alcançavam projeção nacional.
"Na época dos grandes nomes, como Racionais MC’s e Sabotage, houve também o Desacato Verbal, um grupo aqui de Bauru, que teve essa visibilidade nacional. Isso criou uma base muito forte para a cultura local", destaca Vinão.
Além disso, o produtor explica que o contexto geográfico de Bauru, estrategicamente localizado no centro-oeste do estado de São Paulo, contribuiu para a interseção e a disseminação de diferentes influências culturais. A cidade, um importante ponto de conexão entre a capital paulista e o interior do estado, viu-se imersa em um caldeirão cultural, onde as expressões artísticas encontraram espaço para florescer e se desenvolver.
Desse modo, a vitalidade da cultura de rua bauruense manifesta-se em uma variedade de espaços públicos e locais de convívio, proporcionando oportunidades para que artistas e comunidades se conectem e expressem sua criatividade. Conforme observado por Vinão, as batalhas de rimas frequentemente ocorrem em espaços como praças públicas ou áreas de convivência, a exemplo do Bauru Skate Park (BSP), ambientes que se tornaram pontos de encontro para os entusiastas da cultura urbana.
Em várias praças da cidade, como a Rui Barbosa e as de bairros como Mary Dota, Nova Esperança e Parque Santa Edwiges, esses locais se transformam em arenas improvisadas onde MCs, grafiteiros, dançarinos e músicos se reúnem para compartilhar suas paixões e talentos, enriquecendo o tecido cultural da cidade. Esses espaços são palcos para apresentações artísticas, além de catalisadores de interação social e comunitária, promovendo um senso de pertencimento e identidade entre os habitantes de Bauru.
Por meio desses ambientes dinâmicos e multifacetados, a cultura de rua em Bauru encontra um terreno fértil para o diálogo e a troca de ideias. Isso se manifesta nas batalhas de rimas, que são meios para expressão artística e desempenham um papel crucial na conscientização e na promoção de mudanças sociais. Ao explorar os temas abordados nessas competições verbais, é possível vislumbrar as preocupações e as esperanças da comunidade, bem como os desafios enfrentados por aqueles que a compõem.

Imagem: Isadora França
Conscientização e pertencimento através da cultura de rua
Ryan Lourenço, idealizador e organizador da Batalha do Rasi, afirma que a principal razão pela qual decidiu dedicar-se a organizar uma batalha semanal na região do Conjunto Habitacional Engenheiro Otavio Rasi é a preocupação que carrega em relação aos jovens do bairro, e acredita que o envolvimento deles com a arte seja uma forma saudável de lidar com a falta de oportunidades e desafios que enfrentam.
“Este é um bairro onde, querendo ou não, a gente precisa muito de cultura, porque são várias biqueiras e a molecada acaba se perdendo nisso. E eu prefiro que tenha alguém aqui na quarta-feira mandando uma rima do que vê-los numa loja (lugar onde ocorre a compra e venda de drogas). Então eu sempre quis trazer uma batalha pra cá, e graças a Deus a gente conseguiu fazer isso agora. Foi a gente que começou a batalha aqui no Rasi. A gente literalmente educou o público, a saber gritar, a saber respeitar o pessoal”, conta Ryan.
Ele complementa com uma crítica à Secretaria de Cultura, apontando a falta de apoio e preocupação com o futuro dos jovens envolvidos na cultura de rua. Segundo o organizador da Batalha do Rasi, a Secretaria demonstra desinteresse pela cultura local, ignorando as necessidades e aspirações das pessoas envolvidas.
"Pra mim, [as batalhas] são muito importantes, porque a Secretaria de Cultura meio que não liga para a cultura. Sendo sincero, eles não ligam para a cultura. Eles não ligam se o menor de idade vai estar rimando ou se vai estar traficando. Pra eles é sempre a mesma coisa. Então, a gente sempre tenta trazer essa outra visão, de mostrar que a arte compensa mais, que vocês têm que fazer isso. Você não vai ser preso, você não vai passar pelo sofrimento de ver a sua mãe chorando. Esse foi, inclusive, um dos motivos de a gente trazer a batalha pra cá, porque eu tava vendo muito amigo meu indo pro corre, e eu não quero isso”, destaca o organizador.
Além disso, Ryan e Vinão abordam a questão da sensação de pertencimento e consciência identitária que a cultura de rua evoca na juventude que a consome. Vinão ainda sublinha que esse sentimento muitas vezes se manifesta na estética e nas expressões cotidianas dos jovens, que buscam se identificar com a cultura da periferia e da quebrada. O produtor acredita que a cultura de rua cria um senso de comunidade e integração entre os jovens. Em Bauru, uma das setenta maiores cidades do Brasil, esse impacto é especialmente significativo, evidenciado até mesmo nas pequenas nuances do dia a dia, como os acessórios e vestimentas que os jovens escolhem como símbolos de sua identidade e conexão com a cultura urbana.

Imagem: Isadora França
Críticas à Secretaria de Cultura
Assim como Ryan, Vinícius também expressa descontentamento em relação à postura da prefeitura de Bauru diante do cenário cultural. Para ele, a falta de investimento na cultura de rua limita as oportunidades de desenvolvimento para os jovens e contribui para a manutenção de uma estrutura social que perpetua a segregação na sociedade.
“Se você não dá oportunidades, não dá caminhos para a juventude se desenvolver, a probabilidade de essa juventude cair no pior caminho, na criminalidade e no estigma, é muito grande. Então, é muito triste pensar que eles [a prefeitura] não só não apoiam, mas prejudicam uma parte significativa da população”, pontua Vinícius.
O produtor continua, enfatizando que a Secretaria da Cultura de Bauru recusa-se a fornecer um apoio mínimo, mesmo quando a cidade recebe visitantes de outras localidades para grandes eventos culturais de rua. “Uma luz, uma extensão, um banheiro... e mesmo assim eles se negam. Inventam alguma desculpa e cancelam no dia. É muito ruim. E quando eu falo disso para outros produtores e outras pessoas da cultura de outras cidades, a galera fica de cara, dizendo ‘como que vocês passam por isso?’”, diz.
Em resposta às críticas, a Secretaria de Cultura de Bauru destaca a importância das manifestações culturais de rua, incluindo as batalhas de rimas. De acordo com a Assessoria de Comunicação da instituição, a Secretaria acolhe essas manifestações por meio de editais que permitem a inscrição de artistas de rua. Parte desse apoio se verifica na cessão de espaços, como o Teatro de Arena (Centro Cultural), para eventos periódicos como a "Batalha dos 13" e o "Rap Hour". Além disso, a Secretaria afirma fornecer a infraestrutura necessária, como tendas, banheiros químicos e agentes públicos, sempre que solicitado e disponível.
Em relação à advertência sobre o apoio oferecido em comparação ao Sesc, a Secretaria explicou que, embora o apoio às batalhas dependa da disponibilidade de recursos e da antecedência dos pedidos, existem diferenças entre as contratações do poder público e da iniciativa privada. A Secretaria de Cultura enfatizou que seus processos, que em sua maioria realizados por meio de editais que visam garantir igualdade de oportunidades para todos os interessados, são utilizados como uma forma democrática de distribuir recursos. A Assessoria afirma ainda que o apoio fornecido pela Secretaria vai além dos cachês.
“Existe uma visão de que o apoio da Secretaria de Cultura se restringe ao valor dos cachês pagos individualmente, mas o apoio abrange também a contratação de sistema de som, luz, palco, segurança privada, banheiros químicos, gradis, tendas, horas extras e alimentação de funcionários, insumos que, em uma edição da Semana Municipal do Hip Hop, podem ultrapassar os R$ 400 mil”, sublinha a Assessoria.
Sobre os editais oferecidos pela Secretaria, Vinão afirma que um dos projetos aprovados contava o comprometimento da instituição em fornecer transporte para as crianças das áreas atendidas, permitindo que elas pudessem participar de uma final de batalhas. O produtor conta que na véspera do evento, a Secretaria cancelou a sua participação e apoio ao projeto, não apresentando mais respostas aos organizadores.
Além disso, Vinão aponta que, desde que a Semana se tornou lei municipal em 2013, a organização do evento tem sido realizada exclusivamente pelo Instituto Acesso Popular. Ele frisa que o processo para a formação de uma comissão organizadora deveria ser democrático e aberto, permitindo que outras pessoas se inscrevessem. No entanto, somente este ano outros coletivos, como o "014 BPM" e "Formando Mentes Coletivas", foram incluídos na comissão. O produtor também critica a comunicação entre a Secretaria e a população, sobretudo no que diz respeito à divulgação dos editais.
Por outro lado, Vinão compartilha que a relação entre a Secretaria de Cultura e a organização da Semana Municipal do Hip Hop tem sido positiva, mas salienta que a instituição pública não está fazendo um “favor” ao se dedicar ao evento. “Nessas questões da Secretaria de Cultura e a Semana Municipal do Hip Hop rolou uma relação massa. A Secretaria se dispõe na Semana Municipal do Hip Hop, mas também é necessário pensar que não é nenhum favor promover o que é o maior evento de temática de Hip Hop, o maior festival gratuito da América Latina. Então ela não está fazendo um favor, ela está fazendo o seu trabalho ”, argumenta o produtor cultural.
Por fim, a Secretaria expressou seu compromisso contínuo em apoiar a cultura de rua e as batalhas de rimas em Bauru, e reconhece que essas manifestações estão cada vez mais presentes no cotidiano das pessoas. A Secretaria de Cultura também frisa estar aberta ao diálogo com artistas e a comunidade para garantir que suas vozes sejam ouvidas e consideradas nas decisões culturais, mantendo um relacionamento estreito com o Conselho Municipal de Política Cultural para acompanhar as demandas e oferecer soluções.

Imagem: Isadora França
Batalha do Bosque e colaboração com o Sesc
Em contrapartida, o Sesc tem desempenhado um papel fundamental na promoção e apoio à cultura de rua em Bauru. A parceria entre os organizadores locais das batalhas de rimas e a equipe de programação do Sesc resultou na realização da Batalha do Bosque, evento que se destaca como um marco na cena cultural da cidade. Ao contrário da postura criticada por Vinícius em relação à Secretaria de Cultura, a instituição privada tem se mostrado receptiva e engajada em proporcionar espaços e recursos para a expressão artística e desenvolvimento dos jovens locais.
Na primeira edição do evento, os espectadores habituais das batalhas de rimas nos bairros notaram a diferença na infraestrutura oferecida. Kethelin destaca, em particular, a mesa de som como um dos elementos que mais chamaram a atenção, já que nas batalhas de bairro é comum contar com equipamentos mais básicos, conquistados por meio do apoio dos organizadores locais e frequentadores, que buscam oferecer a melhor estrutura que conseguem no momento.
“Ali havia uma mesa de equipamentos para aquilo acontecer, sabe? Bons equipamentos, um bom microfone, enquanto em algumas batalhas de bairro, não podemos contar com um microfone. Como eu disse, em questão de caixas de som, é muito pelas pessoas. Uma pessoa fala ‘você tem uma caixa de som para a gente utilizar?’. Ali no Sesc já estava uma coisa bem estruturada, tinha uma mesa de equipamentos. Então eu percebi uma diferença nessa questão”, relembra Kethelin.
Outro ponto positivo da experiência foi o tratamento dedicado aos MCs. Eles expressaram surpresa ao serem recebidos com um cachê e um camarim, aspectos geralmente ausentes nas batalhas de bairro, devido à falta de apoio a esses eventos.
Sobre isso, Murilo Jesus, membro da equipe de programação do Sesc, enfatiza que o objetivo da instituição é proporcionar o melhor ambiente possível para que os artistas desenvolvam seu trabalho. Ele ressalta que considera tudo isso como algo merecido e lamenta que não seja uma prática comum.
“Eu fico muito contente porque eu acho que a natureza do projeto é essa, é fazer sentido. Oferecer um camarim é algo padrão para a gente. A gente fica muito contente, em um local de respeito. Eu acho preocupante a gente ter um cenário onde a cultura periférica é colocada à margem, não entendendo aquilo como arte”.
Ao discorrer sobre a motivação do Sesc em buscar essa colaboração com os organizadores das batalhas de rimas, Murilo destaca que o objetivo é estabelecer um diálogo constante com a comunidade local, privilegiando e valorizando as manifestações culturais que já ocorrem em Bauru. Isso se traduz em uma abordagem que busca contextualizar as atividades, evitando que se tornem eventos isolados e desconectados da realidade dos participantes. Em vez de trazer artistas de outras localidades, ele declara que o foco é privilegiar os talentos locais, reconhecendo a riqueza do cenário do hip-hop na cidade.
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Imagem: Isadora França
Batalha do Bosque, cronograma e profissionalização
O projeto Batalha do Bosque tem como propósito inicial a realização de uma edição mensal, sempre na última quinta-feira do mês. Essa escolha de data visa evitar conflitos com outras batalhas que já acontecem ao longo da semana. A concepção da Batalha do Bosque é de ser uma espécie de ”final”, e algumas das batalhas de bairro funcionam como seletivas para este evento. Assim, ao final de cada mês, os vencedores das Batalhas do Rasi, da Leste e da BSP competem na Batalha do Bosque, que representa a etapa final do ciclo de confrontos.
Essa disposição, bem como a administração de cachês e outros elementos trazem aos eventos uma estrutura que aproxima os MCs da profissionalização, um dos principais objetivos de cada um deles. Vinão enfatiza que essa busca pela profissionalização é essencial para o reconhecimento e valorização dos artistas locais. “É isso que a gente tem buscado na profissionalização, fazer essa galera, esses fazedores de cultura, esses artistas, se entenderem enquanto artistas e fazedores de cultura. Que esse é o seu trabalho, que você pode se profissionalizar disso, realmente trabalhar fazendo isso”.
A importância da rua
Apesar da relevância de projetos como a Batalha do Bosque e do apoio que o Sesc tem oferecido ao cenário cultural de rua de Bauru, é crucial compreender a importância da rua, no que se entende por cultura de rua. Sobre isso, o professor e vice-diretor da Faculdade de Artes, Arquitetura, Comunicação e Design (FAAC) da UNESP, Juarez Tadeu de Paula Xavier, observa: “As batalhas em Bauru começaram embaixo do viaduto. Depois foram para aquela estação ferroviária, quando tinha o espaço. E, agora, vão pro Sesc. Paradoxalmente, pela ausência da política pública e da possibilidade da utilização do espaço da rua, é uma instituição privada que acolhe”.
Para Juarez, essa condição pode fortalecer a ideia de que a rua não pertence a esses grupos, e reforçar a segregação. “Então você tem um paradoxo: isso fortalece a ideia de que a rua não pertence a esses grupos? Fortalece a ideia dessa segregação, por isso acho paradoxal. Essas contradições têm que ser entendidas e compreendidas. Por que, de uma certa forma, enquanto é na rua, você está discutindo com as pessoas da rua, com os seus iguais, as pessoas que transitam na rua. Quando vai para um espaço como esse, o próprio espaço inibe que as pessoas da rua adentrem", realça Juarez. O vice-diretor salienta, ainda, o significado que o espaço da rua traz consigo, e provoca uma reflexão sobre como esse conceito pode explicar muito sobre a falta de apoio institucional destacado pelos organizadores de batalhas. Segundo ele, a rua por si só representa revolução e transformação.
“A rua é fundamental para toda e qualquer cultura. A rua é determinante. A cultura Iorubá, por exemplo, que é um dos grupos africanos que chegaram no Brasil, determina a rua como sendo o espaço da criação, dedicada ao orixá Exu, que é o orixá da transformação. Então, a rua, nesse contexto, é o espaço da transformação, das contradições, dos enfrentamentos, da superação e, portanto, do aprendizado. Essa me parece ser uma questão muito importante e fundamental no Brasil”, frisa o professor.
Ele destaca que o espaço da rua possui quatro questões fundamentais para a cultura de rua. A primeira delas é que a rua detém uma cosmovisão própria. Diferente dos espaços fechados, a rua é dinâmica e fornece uma dimensão mais ampla de possibilidades. Em segundo lugar está o fato de que as pessoas sentem-se mais livres na rua. O terceiro ponto é que a rua possui o seu código particular e que não pode ser violado. Isso significa que certos comportamentos não são tolerados pelas pessoas que vivem e transitam por aquele lugar, o que concede ao local uma organização e uma norma próprias. Em quarto e último lugar, o professor cita a ética da rua, que em sua opinião, é mais eficiente. Todos esses pontos, para ele, fazem da rua o local ideal para tais manifestações e, portanto, não deve ser ignorada.
Juarez argumenta que, ao levar a cultura das ruas para um local fechado, é necessário aprender a lidar com as mudanças e modificações dessa transição, sem que ela subverta a radicalidade revolucionária da rua. “Eu acho que esse é um grande desafio, como eu mantenho a radicalidade da minha prática e do meu discurso, que nasceu na rua, nos espaços fechados? Acho que é um tema interessante para ser estudado”, aponta o vice-diretor.

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“Não tem outra alternativa, é política pública”
Apesar de frisar a importância de espaços abertos para a cultura de rua, Juarez elogia o papel significativo que o Sesc desempenha com o projeto Batalha do Bosque. No entanto, ele enfatiza que a intervenção do Sesc não pode substituir a necessidade de políticas públicas robustas que apoiem a cultura e a sociedade.
“O Sesc tem um belíssimo e importante papel. Os articuladores culturais do Sesc têm um papel extremamente importante, entretanto, não cabe ao Sesc substituir a política pública. Você tem que ter política pública de estado que assegure esse direito às manifestações culturais. Não tem outra alternativa, é política pública”, marca o professor.
Juarez argumenta que o sucesso de programas sociais, como o Sistema Único de Saúde (SUS) e a universalização do acesso à educação, está diretamente ligado à sua natureza como políticas públicas. Da mesma forma, ele acredita que o desenvolvimento e a manutenção das manifestações culturais subalternizadas dependem da implementação de políticas públicas sólidas e bem planejadas. Sem essas práticas, o acesso a recursos públicos torna-se limitado e desigual, perpetuando a marginalização dessas culturas.
Partindo disso, o vice-diretor afirma que a discussão sobre a cultura de rua e outras manifestações culturais subalternas é, em essência, um debate político. A ocupação da cidade por essas manifestações depende de um compromisso contínuo com políticas públicas que promovam a inclusão, o acesso equitativo a recursos e a valorização da diversidade cultural. Sem essas políticas, as manifestações culturais permanecem vulneráveis à exclusão e marginalização, incapazes de atingir seu pleno potencial de transformação social.

Imagem: Isadora França
Batalha do Bosque como um ponto de virada na trajetória das batalhas de rimas e expectativas futuras
A Batalha do Bosque tem se mostrado um importante passo na cena das batalhas de rimas em Bauru, oferecendo um novo patamar de estrutura e reconhecimento para os MCs locais. Vinão vê essa iniciativa como uma oportunidade crucial para o amadurecimento e profissionalização dos artistas envolvidos. Ele enfatiza que a relação entre os organizadores das batalhas e possíveis parceiros deve ser uma via de mão dupla. Empresas e instituições podem contribuir com prêmios e infraestrutura, enquanto as batalhas oferecem visibilidade e envolvimento comunitário.
Para Vinão, a remuneração dos participantes no evento do Sesc já é um divisor de águas, pois nas batalhas de bairro, normalmente, apenas os vencedores recebem prêmios. Essa nova abordagem, juntamente com parcerias acadêmicas e outras formas de colaboração, pode garantir uma trajetória de sucesso e profissionalização para os MCs, consolidando suas carreiras.
Murilo compartilha a visão de que o projeto Batalha do Bosque deve funcionar como uma forma de impulsionar ainda mais a cultura de rua em Bauru. Ele ressalta que o evento no Sesc oferece uma plataforma para desmistificar e educar o público sobre a cultura das batalhas de rimas, permitindo que pessoas que nunca tiveram contato com essa forma de expressão artística possam agora experienciá-la.
“Em relação às batalhas da cidade, a gente gostaria muito que o projeto que ocorre no Sesc funcionasse como um catalisador. Nosso foco não é o protagonismo. Nosso foco é dialogar, é trabalhar junto. Tanto no fundamento do evento, quanto na forma como a gente constrói o evento, conversando com a galera do rolê. Então, a perspectiva é que isso sirva para que movimente os eventos que já ocorrem. A ideia é que funcione como uma retroalimentação”, finaliza Murilo.


