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A anscestralidade e seus fios

Por: Rebeca Elias

A exposição de Maxwell Alexandre,  Pardo é Papel  tem como objetivo trazer o protagonismo das pessoas pretas e dar voz a essas pessoas que são tão marginalizadas em cada obra. Ao trabalhar diretamente com a representatividade, Maxwell ensina uma multidão a se enxergar em grandes lugares como museus e galerias. A forma como a mostra  nos alcança com tanta beleza e orgulho de nossos traços, corpos e histórias é algo surpreendente e inesquecível. Todos os quadros do artista nos ajudam a compor essa memória cultural e étnica, contribuindo para as manifestações de nossas glórias, apesar das dores, por meio da técnica e do amor, até a pintura estar completa.

 

Ainda sobre técnica e amor que resultam em arte, as tranças e a cultura de trançar cabelos favorecem mais um modo de expressar e atribuir toda a beleza das pessoas pretas. Lembro-me de quando era criança e chegavam os finais de semana. Eu, bem pequenininha, sentava entre as pernas da minha mãe ou da minha tia para que elas pudessem criar uma nova arte com os fios do meu cabelo. Estar com um penteado sempre teve um significado especial para minha família — naqueles momentos, havia muitas trocas de afetos e zelo, e também a manutenção  de nossa autoestima. 

 

Quando elas terminavam de trançar o meu cabelo, eu me olhava no espelho e me sentia super bonita. Aquilo afirmava que o meu crespo era lindo e diverso, e como eu ainda podia ser eu mesma em diferentes versões, alimentando a minha autoconfiança por meio de tanto cuidado. Hoje percebo que o tempo foi o meu melhor amigo nessa construção, trançando a minha autoaceitação ao longo dos anos.

 

E foi assim que eu também aprendi a ser artista, observando essas mulheres dentro de casa, trançando cabelos de outras pessoas enquanto eu crescia; essa arte chegou até a mim de forma natural, passando de uma para outra. Os modos de manusear o afro, aprendendo a cultivar a potência que está sobre nossas cabeças, o cabelo crespo como poder, como coroa. 

 

No entanto, até os dias de hoje, pessoas ridicularizam, menosprezam e fazem inúmeros comentários desagradáveis e, por muitas vezes, criminosos, por não entenderem a profundidade do ato de trançar.

 

A cultura das tranças nasceu no continente africano, carregada de significados, sendo feita para ajudar na proteção contra o sol, marcar classificações étnicas e de classe, como meio de comunicação e como símbolo de identidade cultural, resistência e beleza. Os diversos desenhos das tranças refletem a multiplicidade criativa dos artesãos e das pessoas que usam o penteado.

 

A artista negra Rogelly Nicácio inaugurou recentemente seu salão no centro da cidade de Bauru, chamado de Cabelo Duro, onde meticulosamente faz a sua arte nos cabelos de seus clientes.Toda obra merece dedicação e cuidado, começando pelo plano das ideias antes de  ser materializada.

 

Quando se está construindo o que pode ser uma escultura, monumento ou quadro, com o objetivo de tecer uma grande obra, podemos dizer que o tempo se apresenta como um companheiro presente, que se esvai durante o processo de criação, enquanto apoia sua construção. 

 

Ao usar de diferentes metodologias, as tranças vão se desenvolvendo, e o resultado final fala muito sobre todo o processo. Assim, a paciência e o trabalho árduo são a chave dessa expressão artística. Toda obra exige tempo,  bons materiais, um artista qualificado. Uma bela trança passa por todas essas especificidades até alcançar sua plenitude e contar uma história que converse com o público alvo gerando identidade e pertencimento. 

 

O trabalho de Rogelly exige muito estudo e atenção aos detalhes, a arte em  desenvolvimento pode sofrer deslizes, como falhar em um modelo de trança ou confundir modelo escolhido pelo cliente, isso gera perda de tempo, ainda mais quando o penteado não é simples ou as tranças são longas.

Imagem:  Rebeca Elias

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Muitas trancistas acabam recebendo reclamações relacionadas ao tempo, alguns trabalhos podem demorar mais de sete horas para serem concluídos, e isso depende de diversos fatores, como os materiais usados, agilidade da trancista e modelo de trança.

 

No caso da Rogelly, que conta com uma equipe inteira a seu favor, a artista consegue otimizar seu tempo e o de seus clientes. Isso faz com que seu trabalho seja divulgado e gere interesse do público em consumir suas obras, uma vez que as expectativas são superadas positivamente com a redução do tempo para a entrega de um trabalho impecável. Todo esse processo, fomenta a propagação do trabalho da trancista, atingindo inúmeras camadas sociais da população preta.

 

Rogelly compartilhou algumas memórias sobre como a arte de trançar é ancestral, pensando que o ato está em sua família há gerações. Sua avó trançava os cabelos de sua mãe, sua mãe o dela e ela de suas filhas. Agora, sua filha caçula também aplica com técnica e precisão as tranças nos clientes do salão. 

 

Toda essa história agrega ainda mais beleza ao trabalho, carregando uma memória afetiva, um laço familiar, e uma demonstração de amor e aprendizado. A trancista também conta como sua mãe sempre foi sua maior inspiração e que grande parte da profissional que ela é vem de sua mãe.

 

O caminho percorrido por Rogelly me trouxe uma lembrança: minha avó Mathilde também amava estar com seus cabelos trançados no estilo boxeadora. Com todos os seus fios grisalhos e sedosos, ela era uma pessoa amável e bondosa que partiu no começo de 2009. Ao partilhar sua história de vida comigo, a trancista me reconectou ao centro do amor da minha família: a grande matriarca da família de meu pai.

 

O poder e impacto que as pessoas têm em nossa vida é, de fato, muito relevante. Podemos dizer que a mãe de Rogelly ajudou a “trançar” a sua vida, no sentido poético da expressão, estando presente em seu desenvolvimento como artista e contribuindo para toda sua trajetória de vida.

 

O aumento da procura por trancistas demonstra o quanto as pessoas estão preocupadas em se conectar com a sua raízes para além da estética. Elas buscam conhecer a história transmitida de geração em geração, perpetuando o conhecimento e trazendo sentido e conexão com seus antepassados queridos.

 

Muito se fala sobre como a beleza empodera e como as pessoas pretas se sentem confiantes ao arrumarem seus cabelos, seja utilizando tranças ou cuidando de seus cachos. É também pela resistência de se impor contra padrões estéticos predominantemente europeus, além de, é claro, contribuir na manutenção da autoestima de pessoas que foram afastadas desse sentimento por séculos.

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Imagem:  Rebeca Elias

Cada fio de cabelo é uma peça fundamental na execução. Cada divisão do fio, cada entrelaçar, garante que aquele penteado estará alinhado e bonito. Tudo isso é importante para concluir o trabalho, mas também para trazer uma reflexão, expressar um sentimento, manifestar essa arte. 

 

É de extrema importância falar sobre o impacto que a arte de trançar tem, e o quanto o trabalho de artistas como o de Rogelly é precioso para a nossa sociedade, principalmente para a comunidade negra. Quando se tira o olhar cheio de preconceitos associado aos cabelos crespos e cacheados, a visão que se tem são de penteados e tranças como arte.Olhando como expressão artística, é possível ver a rota mudando, trazendo evidências positivas a uma cultura que tem muita força e uma história de resistência tão forte. 

 

Acredito que contar as histórias de artistas como Rogelly Nicácio e Maxwell Alexandre é também contar a minha história.´É representar meu povo destacando o talento e a capacidade de driblar as estatísticas. É superar expectativas e incentivar caminhos, conectando raízes para ver, em breve, frutos nascerem e flores brotarem.

 

Divulgar trancistas é colocar no centro uma cultura de margem e gerar identificação a quem carrega tantas profundidades em um cabelo.

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Imagem: Rebeca Elias

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