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A democratização da cultura é lenda urbana?

Por: Gabrielle Rocha

Desde os primórdios, como evidenciado pelo teatro na Grécia Antiga, sabe-se que o lazer é essencial para a vida humana, proporcionando descanso tanto para o corpo quanto para a mente. No capitalismo, a frase “trabalhe enquanto os outros dormem” é estampada e disseminada como uma pandemia por charlatões que levantam a bandeira da meritocracia, em um país que sabemos que nunca teve (e talvez nunca terá) oportunidades iguais para todos. Tempo é dinheiro, trabalhe enquanto os outros dormem, lucre enquanto eles se divertem, tenha um burnout enquanto o patrão vê mais alguns zeros aparecendo na conta dele. A canção “Xibom Bombom” é atemporal.

 

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), de 2022 mostram que apenas 34% dos brasileiros vão ao cinema durante o ano. Esse número se torna ainda mais assustador quando pensamos em uma cidade que possui quatro cinemas, como Bauru. A existência desses ambientes voltados apenas para a classe dominante expõe a patética  ideia de democratização da cultura e do lazer em nosso país, já que para usufruir de um direito básico, as periferias precisam enfrentar todos os problemas possíveis, desde preços caríssimos até dificuldades na locomoção. 

 

E o buraco é bem mais embaixo se continuarmos a reflexão. Os números apontam que 44% da população preta e parda vive em locais sem salas de cinema, em comparação com 34,8% da população branca. Quando pensamos no acesso a teatros, essa diferença ainda permanece: 37,5% entre brancos ante 25,4% entre pretos e pardos. Torna-se impossível levar cultura para uma pessoa que sequer tem um espaço para aproveitar. Desse modo, a dominação ideológica fica mais fácil, fazendo com que a pessoa acredite que a única culpada de sua pobreza é ela mesma. 

 

Fica meu questionamento ao leitor: olhe em volta, pense nos lugares em que você se diverte e convive. Quantas pessoas pretas, pardas, LGBTQIAP+, imigrantes ou portadoras de alguma deficiência você vê? A ausência representa um reflexo da nossa concepção, o que você acha “normal” está bem longe de ser normal. Furar a bolha nunca será confortável, porém viver na ignorância, achando que o sol nasce para todos como nasce para você, mostra como estamos doentes.

 

Conhecida popularmente como a “Cidade Sem Limites”, Bauru mostra-se limitadora nesse aspecto. A exclusão social é apenas um dos fatores que afetam os projetos culturais. Preços exorbitantes e localização são outros exemplos que completam essa cadeia. Um deles é o horário em que esses eventos acontecem, normalmente em período comercial. A maior parte da população marginalizada trabalha como CLT, o que torna praticamente impossível que compareçam a eventos que ocorrem entre as 9h e às 17h, horários em que acontecem atividades gratuitas, como as do Sesc Bauru e das demais sessões de cinema, por exemplo. Até mesmo o que foi pensado para “democratizar” a cultura e levá-la aos mais pobres  serve na verdade como rolezinho dos “Enzos” e “Valentinas” sustentados pelos papais.

Ilustração: Incandescente/ @sra.begony

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Baladas e shoppings estão localizadas em áreas mais nobres, como a Avenida Getúlio Vargas e Vila Universitária, deixando de fora bairros periféricos como o Jardim Niceia e a Vila São Sebastião. Outro problema está na locomoção até esses lugares, com o aumento da tarifa de ônibus em 2023, que reajustou o valor da passagem para R$5,00, e aplicativos de transporte que não cobram menos de R$10,00 por corridas. Quanto mais longe, mais caro, tanto para aplicativos quanto para ônibus. É como se fosse algo milimetricamente pensado para que a margem permaneça nas margens e sarjetas bauruenses.

 

É perceptível que, na ocupação dos espaços públicos, os interesses das elites sempre se sobressaem tanto em conteúdo quanto na localização. Em outras palavras, a distância dos centros culturais das periferias é muito maior do que das classes mais altas, visto que cultura ensina e politiza, e quem está no poder não quer que seus manipulados despertem dessa alienação e percebam que se eles tudo produzem, a eles tudo pertence. Torna-se um ciclo vicioso de dominância, em que “o rico fica cada vez mais rico, e o pobre cada vez fica mais pobre” – financeira e intelectualmente falando! 

 

E onde a periferia se encaixa? Nos vãos, servindo às mesas, limpando o chão, lavando os copos enquanto observam outros desfrutarem de algo que foi negado a ela e pensando nos três ônibus que precisará pegar para voltar para casa e talvez assistir à novela.

 

Entram também nesta lista os preços exorbitantes de uma refeição, locais como a Praça da Paz, a Praça Hípica e o famoso Sesc de Bauru, mesmo sendo gratuitos, possuem o peso de uma alimentação cara, não se conectando com o público-alvo, as margens, que buscam locais de lazer com pertencimento não apenas social, mas também financeiro. Outro  problema é que a entrada de alimentos em muitos desses lugares, como teatros e museus, é proibida, o que torna o consumo restrito apenas ao local. Vemos, mais uma vez, a consciência de classe servindo unicamente como discurso de internet, porque na vida real, você precisa escolher entre o lanche que você gostaria de comer ou o Uber de volta para casa.

 

Unindo todos os empecilhos, fica evidente que o lazer será deixado de lado por aqueles que não possuem condições financeiras e são engolidos constantemente pelo capitalismo. O pobre serve apenas como mula de carga, trabalha, cansa e é usado como degrau para os ricos chegarem ao topo. Por fim, quando consegue adquirir ou usufruir de algum recurso da classe alta, aquilo se torna brega e feio. Basta analisar a raiva estúpida dos moradores de Alphaville por ex-moradores da periferia estarem morando no bairro nobre. 

 

        Tendo em vista que o artigo 6º da Constituição Federal reconhece a todos os brasileiros o direito ao lazer e à cultura, e o artigo 215º se refere  garantia que o Estado deve dar para o exercício e incentivo à cultura, é entristecedor, mas não surpreende, ver que esses direitos básicos servem de enfeite quando se trata das camadas marginalizadas da sociedade. 

 

        Em um Brasil com uma crise econômica crescente, e que a recreação é uma das bases para que o ser humano não entre  em colapso, percebemos que a “Cidade Sem Limites” possui, sim, seus limites, e eles se baseiam na sua cor de pele, no seu status social, na sua orientação sexual e etnia. Um dos caminhos que a maioria escolhe para tentar contornar essa situação é acompanhar a tão famosa página de cultura e entretenimento “Social Bauru” e rezar por um evento gratuito e próximo de suas casas a fim de aproveitar os raros e curtos momentos de lazer. 

 

Sem cultura não há mudança. Se ela não chega para todos, a mudança também não virá. E, sinceramente? Sinto que é isso que eles desejam, pois é mais fácil manipular quem nunca viu uma vida que não seja miserável e explorada. O melhor preso é aquele que mal sabe que está em uma prisão. Não é necessário usar violência (ainda que ela seja empregada constantemente), só é preciso marginalizar, tirar tudo aquilo que o faça pensar, criticar e entender. Deixá-lo como um rato em uma ratoeira girando e girando até que não saiba fazer mais nada que não seja aquilo.

 

“Um país não muda pela sua economia, sua política e nem mesmo sua ciência, mas sim pela sua cultura”, a bela frase do sociólogo Betinho se perde em nosso país, especialmente em Bauru. A cidade carece de lazer e meios de acesso a ele e à cultura por aqueles que estão às margens, não apenas como discurso para engajar no Instagram ou em campanhas eleitorais. Afinal, é fácil ser cinéfilo e amante de festivais e livros contemporâneos quando se tem tudo à disposição. Mas tente ser tão conceitual assim tendo tudo isso negado a você enquanto lê na internet que não há pobreza que resista a 14 horas de trabalho.

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